sábado, 15 de outubro de 2011

Dos tratados sobre São João, de Santo Agustinho, bispo


Ninguém vem Amim a não ser que o Pai o atrai (6,44). Não penseis ser atraído contra a vontade. A alma humana é atraída também pelo amor. Nem devemos temer que os homens que pensam as palavras e q1ue estão muito longe da compreensão das cosias divinas nos venham talvez censurar por causa desta palavra evangélica da Escritura, e nos dizer: “Como é que creio por livre vontade se sou atraído”? Respondo eu: livre vontade é pouco; és atraído, também, pelo prazer”.
Que significa ser atraído pelo prazer? Busca tuas delicias no Senhor e ele atenderá os pedidos do teu coração (Sl 36,4). Há um gozo do coração, seu pão delicioso é o celeste. Contudo se possível o poeta dizer: “Cada um se deixa atrair por se prazer”, não pelo seu constrangimento, mas pelo prazer, não pela obrigação, mas pelo deleite, com quanto mais força temos de dizer que o homem é atraído para Cristo.
Se têm os sentidos do corpo sua satisfação, estará o espírito privado de suas alegrias? Se o espírito não conhece delícias, como se disse então: Os filhos dos homens abrigam-se à sombra de suas casas, inebriam-se com as riquezas de tua casa e tu lhe darás de beber da torrente de tuas delícias, porque em ti está fonte de tuas delícias, por que em te está a fonte da vida e à tua luz veremos a luz (Sl 35, 8-10)?
Apresenta-me alguém que ame e entenderá o que falo. Mostra um desejoso, um faminto, um sedento peregrino deste deserto que suspira pela fonte da pátria eterna, mostra alguém assim e saberás de que falo. Se, porém, falo a um indiferente, não compreenderá o que digo.
Estendes um ramo verde a uma ovelha e atrais. Mostram-se nozes a um menino, e é atraído. E corre para onde é atraído, amando, é atraído, é atraído sem violência corporal, é atraído pelo laço do coração. Se, entre as delícias e prazeres terrenos, aqueles que se apresentam aos seus apaixonados exercem forte atração sobre eles, pois é bem verdade que “cada um se deixa atrair por seu prazer”, não atrairá o Cristo revelado pelo Pai? Que deseja a alma com mais veemência do que é verdade? Por isso, deve-se ter uma boca faminta. Para que deseja ele ter uma fome espiritual são, senão para discernir as coisas verdadeiras, para comer e beber a sabedoria, a justiça, a verdade, a eternidade?
Diz o Senhor: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, cá na terra, porque serão saciados (Mt 5,6), lá no céu. Eu lhe entreguei que ama, entreguei o que espera. Vera o que acreditou ainda sem ver. Comerá aquilo que tem fome, será saciado por aquilo que tem sede. Quando? Na ressurreição dos mortos, porque eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6,54).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Da Homilia na Dedicação na Basílica Nacional de Aparecida de João Paulo II


A devoção a Maria é fonte de vida cristã profunda

“Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida! Viva a Virgem Imaculada a senhora Aparecida!”

Desde que pus os pés em terra brasileira, nos vários pontos por onde passei, ouvi este cântico. Ele é na ingenuidade e singeleza de suas palavras, um grito da alma, uma saudação, uma invocação cheia de filial devoção e confiança para aquela que, sendo verdadeira Mãe de Deus, nos foi dada por seu filho Jesus no momento extremo da sua vida para ser nossa Mãe.

Sim amados irmãos e filhos, Maria, a Mãe de Deus, é modelo para a igreja, é Mãe para os remidos. Por sua adesão pronta e incondicional à vontade divina que lhe foi revelada, torna-se Mãe do Redentor, com uma participação intima e toda especial na história da salvação. Pelos méritos do seu Filho, é Imaculada em sua Conceição, concebida sem mancha original, preservada do pecado e cheia de graça. 

Ao confessar-se Serva do Senhor (Lc. 1,38) e ao pronunciar o seu sim, acolhendo “em seu coração e em seu seio” o mistério de Cristo Redentor, Maria não foi instrumento meramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé livre e inteira obediência. Sem nada tirar ou diminuir e nada acrescentar à ação daquele que é o único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Maria nos aponta as vias de salvação, vias que convergem todas para Cristo seu Filho, e para a sua obra redentora.

Maria nos leva a Cristo, como afirma com precisão o Concílio Vaticano II: “A função maternal de Maria, em relação aos homens, de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; antes, manifesta a sua eficácia. E de nenhum modo impede o contato imediato dos fiéis com Cristo, antes o favorece”.  Mãe da Igreja, a Virgem Santíssima tem uma presença singular na vida e na ação desta mesma Igreja. Por isso mesmo, a Igreja tem os olhos sempre voltados para aquela que, permanecendo virgem, gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. Qual é a missão da Igreja senão a de fazer nascer o Cristo no coração dos fiéis, pela ação do mesmo Espírito Santo, através da evangelização?

Assim, a “Estrela da Evangelização”, como a chamou o meu Predecessor Paulo VI, aponta e ilumina os caminhos do anúncio do Evangelho. Este anúncio de Cristo Redentor, de sua mensagem de salvação, não pode ser reduzido a um mero projeto humano de bem-estar e felicidade temporal. Tem certamente incidências na história humana coletiva e individual, mas é fundamentalmente um anúncio de libertação do pecado para a comunhão com Deus, em Jesus Cristo. De resto, esta comunhão com Deus não prescinde de uma comunhão dos homens uns com os outros, pois os que se convertem a Cristo, autor da salvação e princípio de unidade, são chamados a congregar-se em Igreja, sacramento visível desta unidade humana salvífica.

Por tudo isto, nós todos, os que formamos a geração hodierna dos discípulos de Cristo, com total aderência à tradição antiga e com pleno respeito e amor pelos membros de todas as comunidades cristãs, desejamos unir-nos a Maria, impelidos por uma profunda necessidade da fé, da esperança e da caridade. Discípulos de Jesus Cristo neste momento crucial da história humana, em plena adesão à ininterrupta Tradição e ao sentimento constante da Igreja, impelidos por um íntimo imperativo de fé, esperança e caridade, nós desejamos unir-nos a Maria. E queremos fazê-lo através das expressões da piedade mariana da Igreja de todos os tempos.

A devoção a Maria é fonte de vida cristã profunda, é fonte de compromisso com Deus e com os irmãos. Permanecei na escola de Maria, escutai a sua voz, segui os seus exemplos. Como ouvimos no Evangelho, ela nos orienta para Jesus: Fazei o que ele vos disser (Jo 2,5). E, como outrora em Caná da Galiléia, encaminha ao Filho as dificuldades dos homens, obtendo dele as graças desejadas. Rezemos com Maria e por Maria: ela é sempre a “Mãe de Deus e nossa”.

Mártires de Cristo lá e cá

Dom Henrique Soares da Costa, 
bipo auxiliar de Aracaju -SE

Nenhum outro grupo religioso tem sofrido tantas perseguições quanto os cristãos. E ninguém liga, ninguém grita por eles... Agora mesmo, estamos vendo os cristãos do Egito sofrendo por parte dos muçulmanos. Mas, não é só no Egito não: há os vários países islâmicos, há o governo ateu da China, há até mesmo regiões budistas e hinduístas onde somos perseguidos... E como machuca, como dói, como é triste...


Mas, existe um outro tipo de perseguição, mais silenciosa e camuflada: aquela das nossas sociedades ocidentais, que procuram desacreditar a nossa fé, que faz de tudo para nos marginalizar e ridicularizar, que exalta tudo quanto seja anticristão. Um pequeno exemplo? Na Austrália e na Inglaterra já se pensa seriamente em eliminar a expressão “antes de Cristo” e “depois de Cristo” para identificar os anos e séculos... Cristo deve desaparecer – e ai dos cristãos.


A perseguição aberta, física, cria resistência, fortalece a fé de muitos, faz com que os perseguidos renovem a consciência de que pertencem ao Senhor e não ao mundo. O mártir de Cristo toma consciência plena de que o mundo nos odeia, como odiou o nosso bendito Senhor. Mas, a perseguição velada, camuflada, tende a nos enfraquecer, a nos acovardar, a nos render ao mundo. Quantos cristãos vão aderindo ao modo mundano de viver, sem perceber que o mundo mundano nos despreza e ridiculariza. Dá pena certas ilusões de que se pode dialogar com certo mundo!


Nosso critério não é o diálogo, mas a verdade de Cristo. E a verdade de Cristo não é uma teoria, mas o próprio Cristo e o caminho que ele percorreu. Nesse sentido, como não recordar aquelas palavras perturbadoras da Epístola aos Hebreus? “Corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição. Em vista da alegria que o esperava, suportou a cruz, não se importando com a infâmia, e assentou-se à direita do trono de Deus. Pensai, pois, naquele que enfrentou uma tal oposição por parte dos pecadores, para que não vos deixeis abater pelo desânimo. Vós ainda não resististes até ao sangue, na vossa luta contra o pecado” (Hb 12,1b-4). Palavras deveras perturbadoras! Um convite claro a seguir nosso Jesus, a fazer nossa a sua experiência, a colocar nossos passos nos seus passos: ele é o autor e consumador da nossa fé – e não se pode crer nele sem seguir o caminho dele. Em vista de uma existência humana gloriosa da glória do mundo – aquela que Satanás lhe propôs nas tentações -, ele prefere a fiel obediência ao Pai e, suprimido deste mundo por artimanha dos pecadores, suportou a cruz e triunfou na lógica de Deus!


Não, Irmão! Nosso caminho não pode ser diferente! Não somos iguais ao mundo, não podemos pensar como o mundo! Não somos melhores nem piores, mas somos diferentes: nosso critério é Cristo, nossa esperança é Cristo, nossa vida é Cristo! Nossa referência nunca poderá ser o mundo, na tentativa de agradá-lo ou parecer-lhe simpático, na ilusão de que isso o atrairia a Cristo. Essa imitação do mundo somente nos faz fracos, ambíguos e ridículos. Cristo nos chama a correr com ele a corrida da fé, a combater com ele o combate de ser fiel ao Pai. O Senhor nos convida a resistir, a não ter medo das piadinhas, a não vacilar ante as tentativas de ridicularizarem nossa fé, a não fazer concessões ao pecado... Ante um mundo secularizado e anticristão, somos chamados a olhar Jesus e sermos cada vez mais fieis a ele, sem meios termos, sem “mas” nem “porém”.
Que o Senhor socorra com a força potente do seu Espírito os cristãos perseguidos de morte e de modos diversos nos vários pontos deste mundo. Uma coisa é certa: sua palavra: “No mundo tereis tribulações! Tende coragem: eu venci o mundo!”

 


fonte: VISÃO CRISTÃ, disponível em: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

domingo, 9 de outubro de 2011

UM EMAIL ENVIADO POR UMA AMIGA QUE MERECE UMA ATENÇÃO


O EMAIL que segue merece nossa atenção.
"A filha de Billy Graham estava sendo entrevistada no Early Show e Jane Clayson perguntou a ela: 'Como é que Deus teria permitido algo horroroso assim acontecer no dia 11 de setembro?'
 Anne Graham deu uma resposta profunda e sábia: 'Eu creio que Deus ficou profundamente triste com o que aconteceu, tanto quanto nós.
Por muitos anos temos dito para Deus não interferir em nossas escolhas, sair do nosso governo e sair de nossas vidas.

Sendo um cavalheiro como Deus é, eu creio que Ele calmamente nos deixou. Como poderemos esperar que Deus nos dê a sua benção e a sua proteção se nós exigimos que Ele não se envolva mais conosco?'

À vista de tantos acontecimentos recentes; ataque dos terroristas, tiroteio nas escolas, etc...

Eu creio que tudo começou desde que Madeline Murray O'hare (que foi assassinada), se queixou de que era impróprio se fazer oração nas escolas Americanas como se fazia tradicionalmente, e nós concordamos com a sua opinião.

Depois disso, alguém disse que seria melhor também não ler mais a Bíblia nas escolas... A Bíblia que nos ensina que não devemos matar e roubar, mas amar o nosso próximo como a nós mesmos. E nós concordamos com esse alguém.

Logo depois o Dr. Benjamin Spock disse que não deveríamos bater (não espancar) em nossos filhos quando eles se comportassem mal, porque suas personalidades em formação ficariam distorcidas e poderíamos prejudicar sua auto-estima (o filho dele se suicidou) e nós dissemos: 'Um perito nesse assunto deve saber o que está falando'. E então concordamos com ele.

Depois alguém disse que os professores e diretores das escolas não deveriam disciplinar nossos filhos quando se comportassem mal. Então foi decidido que nenhum professor poderia disciplinar os alunos... (há diferença entre disciplinar e tocar).

Aí, alguém sugeriu que deveríamos deixar que nossas filhas fizessem aborto, se elas assim o quisessem. E nós aceitamos sem ao menos questionar.

Então foi dito que deveríamos dar aos nossos filhos tantas camisinhas, quantas eles quisessem para que eles pudessem se divertir à vontade. E nós dissemos: 'Está bem!'

Então alguém sugeriu que imprimíssemos revistas com fotografias de mulheres nuas, e disséssemos que isto é uma coisa sadia e uma apreciação natural do corpo feminino.

E nós dissemos: 'Está bem, isto é democracia, e eles tem o direito de ter liberdade de se expressar e fazer isso'.

Depois outra pessoa levou isso um passo mais adiante e publicou fotos de Crianças nuas e foi mais além ainda, colocando-as à disposição da internet.

Agora nós estamos nos perguntando por que nossos filhos não têm consciência e porque não sabem distinguir o bem e o mal, o certo e o errado; porque não lhes incomoda matar pessoas estranhas ou seus próprios colegas de classe ou a si próprios...

Provavelmente, se nós analisarmos seriamente, iremos facilmente compreender: nós colhemos só aquilo que semeamos!

Uma menina escreveu um bilhetinho para Deus: 'Senhor, porque não salvaste aquela criança na escola?' A resposta dele: 'Querida criança, não me deixam entrar nas escolas!' É triste como as pessoas simplesmente culpam a Deus e não entendem porque o mundo está indo a passos largos para o inferno. É triste como cremos em tudo que os Jornais e a TV dizem, mas duvidamos do que o Evangelho, ou do que a sua religião, que você diz que segue ensina.

É triste como alguém diz: 'Eu creio em Deus'. Mas ainda assim segue a satanás, que, por sinal, também ''Crê'' em Deus. É engraçado como somos rápidos para julgar, mas não queremos ser julgados!

Como podemos enviar centenas de piadas pelo e-mail, e elas se espalham como fogo, mas, quando tentamos enviar algum e-mail falando de Deus, as pessoas têm receio de compartilhar e reenviá-los a outros!  É triste ver como o material imoral, obsceno e vulgar corre livremente na internet, mas uma discussão pública a respeito de Deus é suprimida rapidamente na escola e no trabalho".

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

I CONGRESSO EUCARÍSTICO DIOCESANO



“A nossa Igreja é Santa é, por natureza jubilar. O termo jubilar designa um estado de alegria, de realização”. Esta realização está nAquele (Jesus Cristo) que é o fundamento de sua Igreja e, Una Santa, Católica e Apostólica. É nessa catolicidade e apostolicidade, que a Igreja penitente se une com a Igreja triunfante para celebrar o seu jubileu.
Deus, desde toda eternidade pensou, desejou e amor esta Igreja e o seu Filho a instituiu na pessoa de seu apóstolo quando diz “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Vêm tempestades, vão tempestades e a Igreja de Deus permanece e permanecerá até avinda do senhor, onde a Igreja penitente será apenas triunfante. Enquanto não chega este momento de entramos na Igreja triunfante, nos alegremos e agradecemos a Deus na Igreja penitente por suas dádivas. É com este espírito de regozijo que a Diocese de Palmeira dos Índios vem render graças a Deus por seu cinqüentenário. Por isso queremos celebrá-lo com um Congresso Eucarístico.
A preparação já começou. Desde 2007 a imagem peregrina de Nossa senhora do Amparo vem visitando as paróquias de nossa Diocese onde o seu coroamento se dará no dia 19 de agosto de 2012.
Ide, ele vos espera (Mt 28, 10)

BENTO XVI NA ALEMANHA 26/9/2011 - Discurso no convento de Lutero



ERFURT, Alemanha - Apresentamos o discurso que Bento XVI pronunciou na sex-feira, 23, em sua chegada ao Augustinerkloster de Erfurt, ao reunir-se com os 15 representantes do Conselho da EKD - Igreja Evangélica Alemã.



Ilustres Senhoras e Senhores!



Ao tomar a palavra, quero, antes de tudo, agradecer cordialmente esta oportunidade de nos encontrarmos aqui. A minha particular gratidão vai para Vossa Excelência, amado Irmão Presidente Schneider, que me deu as boas-vindas e, com suas palavras, me acolheu no vosso meio. Com toda a franqueza do seu coração, Vossa Excelência exprimiu abertamente a fé verdadeiramente comum, o desejo de unidade. E nós sentimo-nos felizes ainda porque considero que esta assembleia e os nossos encontros são celebrados também como a festa da fé que temos em comum. Além disso, quero agradecer a todos pelo vosso dom de podermos conversar juntos como cristãos aqui, neste lugar histórico.



Para mim, como Bispo de Roma, é um momento de profunda emoção encontrar-vos aqui, no antigo convento agostiniano de Erfurt. Como acabamos de ouvir, Lutero estudou teologia aqui. Aqui foi ordenado sacerdote. Contra a vontade do pai, abandonou os estudos de jurisprudência para estudar teologia e encaminhar-se para o sacerdócio na Ordem de Santo Agostinho. E a incentivá-lo neste caminho não era um pormenor ou outro; o que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário. "Como posso ter um Deus misericordioso?" Tal era a pergunta que lhe atravessava o coração e estava por detrás de cada pesquisa teológica e de cada luta interior. Para Lutero, a teologia não era mera questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, que, no fim de contas, era uma luta a propósito de Deus e com Deus.



"Como posso ter um Deus misericordioso?" O fato de que esta pergunta tenha sido a força motriz de todo o seu caminho, não cessa de maravilhar o meu coração. Com efeito, hoje quem se preocupa ainda com isto, mesmo entre os cristãos? Que significa a questão de Deus na nossa vida, no nosso anúncio? Hoje, a maioria das pessoas, mesmo cristãs, dá por suposto que Deus, em última análise, não se interessa dos nossos pecados e das nossas virtudes. Ele bem sabe que todos nós não passamos de carne. Se se acredita ainda num além e num juízo de Deus, praticamente quase todos pressupõem que Deus terá de ser generoso e, no fim das contas, na sua misericórdia ignorar as nossas pequenas faltas. A questão já não nos preocupa. Mas, verdadeiramente são assim pequenas as nossas faltas? Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na própria vantagem? Porventura não é ele devastado por causa do poder da droga, que vive, por um lado, da ambição de vida e de dinheiro e, por outro, da avidez de prazer das pessoas que a ela se abandonam? Não está ele porventura ameaçado por uma crescente predisposição à violência que não raro se dissimula sob a aparência de religiosidade? Poderiam a fome e a pobreza devastar assim regiões inteiras do mundo, se estivesse mais vivo em nós o amor de Deus e, derivado dele, o amor ao próximo, às criaturas de Deus que são os homens?



E poderiam continuar as perguntas nesta linha. Não, o mal não é uma ridicularia. Mas não seria forte, se verdadeiramente colocássemos Deus no centro da nossa vida. Esta pergunta que desinquietava Lutero - Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? - deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta. Penso que este constitui o primeiro apelo que deveremos escutar no encontro com Martinho Lutero.



Depois é importante também isto: Deus, o único Deus, o Criador do céu e da terra, é algo demosteirolutero.jpg diverso duma hipótese filosófica sobre a origem do universo. Este Deus tem um rosto e falou-nos. No homem Jesus Cristo, Ele tornou-Se um de nós: verdadeiro Deus e, simultaneamente, verdadeiro homem. O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era "aquilo que promove Cristo". Mas isto pressupõe que Cristo seja o centro da nossa espiritualidade e que o amor por Ele, o viver juntamente com Ele, oriente a nossa vida.



Ora, poder-se-ia talvez, dizer: Está bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com a nossa situação ecumênica? Porventura não será tudo isto apenas uma tentativa de iludir, com uma inundação de palavras, os problemas urgentes onde se esperam progressos práticos, resultados concretos? A respeito disto, respondo: a coisa mais necessária para o ecumenismo é primariamente que, sob a pressão da secularização, não percamos, quase sem dar por isso, as grandes coisas que temos em comum, que por si mesmas nos tornam cristãos e que nos ficaram como dom e tarefa. O erro do período confessional foi ter visto, na maior parte das coisas, apenas aquilo que separa, e não ter percebido de modo existencial o que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas profissões de fé do cristianismo antigo.



Para mim, isto constitui o grande progresso ecumênico dos últimos decênios: termo-nos dado conta desta comunhão e, no rezar e cantar juntos, no compromisso comum em prol da ética cristã face ao mundo, no testemunho comum do Deus de Jesus Cristo neste mundo, reconhecermos tal comunhão como o nosso comum e imorredouro alicerce.



É certo que o perigo de perdê-la não é irreal. Queria brevemente fazer notar dois aspectos. Nos últimos tempos, a geografia do cristianismo mudou profundamente e continua a mudar. Perante uma forma nova de cristianismo, que se difunde com um dinamismo missionário imenso, por vezes preocupante nas suas formas, as Igrejas confessionais históricas ficam muitas vezes perplexas. Trata-se de um cristianismo de escassa densidade institucional, com pouca bagagem racional, sendo ainda menor a bagagem dogmática, e também com pouca estabilidade. Este fenômeno mundial - que me é continuamente descrito pelos bispos de todo o mundo - põe-nos a todos perante esta questão: Que tem a dizer-nos, de positivo e de negativo, esta nova forma de cristianismo? Em todo o caso, coloca-nos novamente perante a pergunta sobre o que permanece sempre válido e o que pode ou deve ser mudado, perante a questão relativa à nossa opção fundamental na fé.



Mais profundo e, no nosso país, mais inquietante, é o segundo desafio para toda a cristandade; dele quero agora falar-vos: trata-se do contexto do mundo secularizado, em que temos hoje de viver e testemunhar a nossa fé. A ausência de Deus na nossa sociedade faz-se mais pesada; a história da sua revelação, de que nos fala a Escritura, parece colocada num passado que se distancia sempre mais. Porventura será preciso ceder à pressão da secularização, tornar-se moderno através duma mitigação da fé? Naturalmente, a fé deve ser repensada e, sobretudo, vivida hoje de um modo novo, para se tornar uma realidade que pertença ao presente. Para isso ajuda não a mitigação da fé, mas somente o vivê-la integralmente no nosso hoje. Esta constitui uma tarefa ecumênica central, na qual nos devemos ajudar mutuamente: a crer de modo mais profundo e vivo.



Não serão as táticas a salvar-nos, a salvar o cristianismo, mas uma fé repensada e vivida de modo novo, através da qual, Cristo, e com Ele o Deus vivo, entre neste nosso mundo. Tal como os mártires do período nazista nos aproximaram uns dos outros e suscitaram a primeira grande abertura ecumênica, assim também hoje a fé, vivida a partir do íntimo de nós mesmos, num mundo secularizado, é a força ecumênica mais poderosa que nos reúne, guiando-nos para a unidade no único Senhor. E por isso Lhe pedimos a graça de aprender de novo viver a fé, para assim nos podermos tornar um só.



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terça-feira, 4 de outubro de 2011

EUA: BISPOS INSTITUEM COMITÊ PARA LIBERDADE RELIGIOSA

“Se não agirmos agora, as consequências serão graves”, afirma Dom Lori

WASHINGTON, terça-feira, 4 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – A liberdade religiosa está ameaçada nos Estados Unidos, até o ponto de justificar um novo comitê ad hoc para enfrentar esta preocupação crescente, sustentam os bispos da nação.
A Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB) anunciou, na última sexta-feira, a instituição do Comitê Ad Hoc para a Liberdade Religiosa, presidido por Dom William Lori, de Bridgeport (Connecticut).
O apoio ao trabalho do comitê incluirá a incorporação de dois membros, a tempo integral, à equipe da USCCB: um advogado especialista no direito relativo à liberdade religiosa e um representante de um grupo de pressão, que gestionará as questões que têm a ver tanto com a liberdade religiosa como com o matrimônio.
Dom Lori, de 60 anos de idade, afirmou que acolhe com satisfação a “oportunidade de trabalhar com os meus irmão bispos e com homens e mulheres especialistas em direito constitucional, para defender e promover o dom divino da liberdade, reconhecido e garantido pela Carta de Direitos da Constituição dos Estados Unidos”.
“Este comitê ad hoc pretende enfrentar as crescentes ameaças à liberdade religiosa na nossa sociedade, de maneira que a missão da Igreja possa proceder sem impedimentos e os direitos dos crentes de toda fé religiosa ou de nenhuma possam ser respeitados”, acrescentou.
Sem precedentes
Em sua carta aos bispos para anunciar a instituição do comitê, Dom Timothy Dolan, presidente da USCCB, afirmou que a liberdade religiosa, “em suas muitas e diversas aplicações para os cristãos e as pessoas de fé, está sempre sob ataque na América, de formas sem precedentes”.
“Isso é sobretudo por um número cada vez maior de programas e de políticas do governo federal que violariam o direito de consciência das pessoas de fé ou prejudicariam o princípio de base da liberdade religiosa”, observou.
O arcebispo acrescentou que “a instituição de um comitê ad hoc é um elemento que, espero, marcará um momento novo na história da nossa Conferência”.
“Nunca antes havíamos enfrentado este tipo de desafio à nossa capacidade de comprometer-nos no âmbito público como pessoas de fé e provedoras de serviços. Se não agirmos agora, as consequências serão graves.”
A carta de Dom Dolan aos bispos, na qual se anuncia a instituição do comitê, pode ser lida em: www.usccb.org/issues-and-action/religious-liberty/upload/dolan-letter-on-religious-liberty.pdf.